O homem invisível

Hoje, indo para o trabalho, ultrapassei um cara de bicicleta.

Bicicleta rosa, com um monte de florzinha e enfeites de plástico, buzinas, sinetes, bandeirolas e cheia de adesivos.

Achei engraçado. E só.

Depois que estacionei o carro, vi que o cara estava bem atrás de mim. Ele acabou subindo na calçada, esperando para atravessar a rua.

Desci do carro e quando fui atravessar a rua, ele me abordou:

– Bom dia

Estava com uma voz bastante alterada, transparecendo algum tipo de deficiência. A voz era comum e simples. De pessoa simples e humilde. Percebi que ele era (ou parecia) um desses personagens folclóricos que quase toda cidade possui. Era um desses “louquinhos” de rua. Ele continuou a conversa com sua voz embargada:

– O senhor viu que ontem protestaram na frente da casa do governador do Rio de Janeiro? O pessoal aproveita para roubar um monte de coisa...

Respondi meio desinteressado e meio de lado, que havia visto.

– Esse pessoal é complicado. Roubando! Coisa feia. E o senhor viu o Atlético Mineiro ontem? Perdeu de dois...

– Vi, sim. Agora vai ser difícil recuperar.

– É. Respondeu-me o ciclista.

Neste momento, enquanto ele ficava na calçada, eu já estava atravessando a rua, misturando um pouco de pressa, pena e compaixão. Como se eu precisasse, de alguma forma, fugir dele. Como se ele fosse me fazer algum mal. Como se ele fosse invisível.

Pena e compaixão são diferentes. E, na minha visão, na compaixão surge a crença na capacidade de solucionar o problema e apoiar os necessitados com ações. A pena transparece um sentimento de acreditar que o outro não é capaz (ou não tem culpa) de resolver suas questões. É a sensação de “coitado dele”. Você até se comisera, reflete, mas olhara para o lado e segue. Não estende a mão. 

Não que o ciclista precisasse de alguma ajuda, mas eu poderia ter ficado pelo menos mais 3 minutos conversando com ele. Não me faria mal e talvez para ele fizesse bem.

Depois que refleti sobre o ocorrido e enquanto escrevia este texto, não sentia nem pena, nem compaixão.

Sentia vergonha.

De mim.

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